{"id":923,"date":"2019-02-27T14:00:09","date_gmt":"2019-02-27T17:00:09","guid":{"rendered":"https:\/\/espacocamila.wordpress.com\/?p=923"},"modified":"2020-11-05T17:53:48","modified_gmt":"2020-11-05T20:53:48","slug":"depressao-e-ideacao-suicida","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/espacocamilaferreira.com.br\/?p=923","title":{"rendered":"Depress\u00e3o e Idea\u00e7\u00e3o Suicida"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: left;\">A depress\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica, pois produz impacto negativo na vida do paciente e de sua fam\u00edlia, comprometendo o funcionamento do indiv\u00edduo nos aspectos pessoal, social e laboral. De acordo com a OMS, at\u00e9 2020, a depress\u00e3o dever\u00e1 ocupar o segundo lugar entre as doen\u00e7as, logo depois das enfermidades cardiovasculares (WHO, 2009). Nesse quadro, incluem-se os transtornos unipolares (depress\u00e3o maior e distimia) e os bipolares, al\u00e9m dos transtornos de humor induzidos por subst\u00e2ncias ou devidos a condi\u00e7\u00e3o m\u00e9dica geral.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Segundo o Manual Diagn\u00f3stico e Estat\u00edstico dos Transtornos Mentais, quarta edi\u00e7\u00e3o (DSM-IV-TR), da Associa\u00e7\u00e3o Psiqui\u00e1trica Americana (APA, 1994), a depress\u00e3o pode manifestar-se como Epis\u00f3dio Depressivo Maior (EDM). Nesses termos, os crit\u00e9rios do DSM-IV se caracterizam por pelo menos cinco dos sintomas seguintes: humor deprimido, interesse ou prazer acentuadamente diminu\u00eddo, perda ou ganho significativo de peso, ins\u00f4nia ou hipersonia, agita\u00e7\u00e3o ou retardo motor, fadiga ou perda de energia, sensa\u00e7\u00e3o de inutilidade, culpa excessiva ou inapropriada, capacidade diminu\u00edda para pensar ou concentrar-se, indecis\u00e3o e pensamentos recorrentes sobre morte.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Para o diagn\u00f3stico, tais sintomas devem estar presentes todos os dias, ao longo de duas semanas, e incluir, pelo menos um dos dois primeiros crit\u00e9rios, a saber: humor deprimido ou perda de interesse e prazer. A depress\u00e3o apresenta-se com caracter\u00edsticas diagn\u00f3sticas semelhantes na Classifica\u00e7\u00e3o Internacional de Doen\u00e7as (CID-10) da OMS (1993), de acordo com a qual, o n\u00famero e a gravidade dos sintomas classificam o epis\u00f3dio depressivo em tr\u00eas graus: leve, moderado e grave. Os crit\u00e9rios m\u00ednimos para o diagn\u00f3stico de epis\u00f3dio depressivo envolvem dois dos tr\u00eas sintomas principais (humor deprimido, perda de interesse ou prazer e energia reduzida), podendo ser acompanhados de outros sintomas, tais como redu\u00e7\u00e3o da concentra\u00e7\u00e3o e aten\u00e7\u00e3o, assim como da autoestima e da autoconfian\u00e7a, aliados a preju\u00edzos funcional ou social.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">O humor depressivo varia pouco no dia a dia ou segundo as circunst\u00e2ncias e pode estar associado a sintomas \u201csom\u00e1ticos\u201d, a exemplo de perda de interesse ou prazer, despertar matinal precoce, agravamento matinal da depress\u00e3o, lentid\u00e3o psicomotora importante, agita\u00e7\u00e3o, redu\u00e7\u00e3o de apetite, perda de peso e perda da libido. A import\u00e2ncia do estudo da depress\u00e3o, seja de sua etiologia, seja dos tratamentos mais eficazes para a remiss\u00e3o, decorre de ser a perturba\u00e7\u00e3o psiqui\u00e1trica mais frequentemente encontrada e tamb\u00e9m aquela que, por vezes, confronta o terapeuta com situa\u00e7\u00f5es dram\u00e1ticas, como o risco de suic\u00eddio (GOUVEIA, 1990).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A depress\u00e3o e o suic\u00eddio s\u00e3o fen\u00f4menos complexos que trazem intenso sofrimento na vida das pessoas acometidas, de seus familiares, amigos e comunidade. Estes dois fen\u00f4menos coexistem e se influenciam mutuamente (BARBOSA, et al., 2014), e ambos s\u00e3o considerados significativos problemas de sa\u00fade p\u00fablica (WHO, 2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0A OMS estima que a depress\u00e3o \u00e9 respons\u00e1vel por 4,3% da carga global das doen\u00e7as e est\u00e1 entre as maiores causas de incapacidade no mundo. A depress\u00e3o caracteriza-se pelo prolongamento de sintomas depressivos e varia\u00e7\u00e3o de humor (RIOS; BARBOSA; BELASCO, 2014). A pessoa acometida por esse transtorno tem a capacidade de ver o mundo e a realidade alterada. O Brasil apresenta as maiores taxas de depress\u00e3o, 18,4% da sua popula\u00e7\u00e3o j\u00e1 teve pelo menos um epis\u00f3dio depressivo durante a vida, ficando atr\u00e1s apenas da Fran\u00e7a (21,0%) e Estados Unidos (19,2%) (BROMET, et al., 2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A OMS entende por suic\u00eddio o ato de matar-se deliberadamente. E por comportamento suicida, uma diversidade de comportamentos que incluem o pensar em suicidar-se, considerado como idea\u00e7\u00e3o suicida, planejar o suic\u00eddio, tentar o suic\u00eddio e cometer o suic\u00eddio propriamente dito. E considera como risco para o suic\u00eddio a presen\u00e7a de fatores sociais, psicol\u00f3gicos, culturais, relacionais, individuais e de outro tipo que podem levar uma pessoa a um comportamento suicida (WHO, 2014).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Compreender a depress\u00e3o e os riscos para o suic\u00eddio, como tamb\u00e9m os fatores envolvidos, \u00e9 de extrema import\u00e2ncia para os estudos relacionados \u00e0 sa\u00fade do trabalhador (SCHMIDT; DANTAS; MARZIALE, 2014).Cabe ressaltar que a preval\u00eancia de sintomas depressivos e suic\u00eddio, que corresponde ao processo e causas de morte provocados pela pr\u00f3pria v\u00edtima, \u00e9 elevada entre os profissionais da sa\u00fade (BARBOSA, et al., 2014). O mesmo autor salienta ainda que a preval\u00eancia \u00e9 influenciada pelo estresse do ambiente e processo de trabalho, que interfere significativamente na vida laboral destes profissionais, com impacto na qualidade de vida. Lentid\u00e3o nas atividades, desinteresse, redu\u00e7\u00e3o da energia, apatia, dificuldade de concentra\u00e7\u00e3o, pensamento negativo e recorrente, com perda da capacidade de planejamento e altera\u00e7\u00e3o do ju\u00edzo de verdade s\u00e3o evid\u00eancias de sofrimento humano que sinalizam para depress\u00e3o e poss\u00edvel risco de suic\u00eddio (VIEIRA, et al., 2014; SCHMIDT; DANTAS; MARZIALE, 2011).<\/p>\n<h3 style=\"text-align: left;\"><strong>\u00a0A Abordagem da Terapia Cognitivo Comportamental <\/strong><\/h3>\n<p style=\"text-align: left;\">A terapia cognitivo-comportamental (TCC) consiste em desenvolver e aplicar estrat\u00e9gias que favore\u00e7am mudan\u00e7as comportamentais e cognitivas. A escolha das estrat\u00e9gias utilizadas \u00e9 determinada de acordo com os comportamentos que se pretende alterar (ITO, 1998; KNAPP; BECK, 2008; SHINOHARA, 2001). As interven\u00e7\u00f5es cognitivo-comportamentais s\u00e3o baseadas em ensinar o paciente a identificar e lidar com as situa\u00e7\u00f5es relacionadas aos sintomas da doen\u00e7a, bem como treinar repert\u00f3rio de habilidades sociais e resolu\u00e7\u00e3o de problemas. O objetivo central dessa interven\u00e7\u00e3o \u00e9 alterar excessos ou d\u00e9ficits comportamentais, cren\u00e7as e valores relacionados aos comportamentos-problema (KNAPP; BECK, 2008).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Dobson (2006) retrata que as terapias cognitivo-comportamentais s\u00e3o tratamentos relativamente de curta dura\u00e7\u00e3o, voltadas para objetivos e focados em problemas que se baseiam fundamentalmente no modelo de que mudar as cogni\u00e7\u00f5es \u00e9 poss\u00edvel e leva a mudan\u00e7a comportamental.<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A teoria cognitiva defende a exist\u00eancia de um transtorno do pensamento no cerne das s\u00edndromes psiqui\u00e1tricas como depress\u00e3o e <a href=\"https:\/\/espacocamilaferreira.com.br\/?p=2331\">ansiedade<\/a>. Esse transtorno se refletiria em um modo distorcido de interpretar as diversas situa\u00e7\u00f5es do cotidiano, que determinaria sentimentos e comportamentos disfuncionais. A avalia\u00e7\u00e3o realista e modifica\u00e7\u00e3o dos pensamentos distorcidos resultariam numa melhora do humor e do comportamento. A melhora duradoura resultaria da modifica\u00e7\u00e3o das cren\u00e7as disfuncionais b\u00e1sicas dos pacientes (BECK, 1997). J\u00e1 Beck et al. (1979) definem terapia cognitiva como uma abordagem estruturada, ativa, diretiva, limitada no tempo, para tratar alguns transtornos psiqui\u00e1tricos, lidando com as cogni\u00e7\u00f5es que o indiv\u00edduo apresenta. Apesar da TCC ter mostrado consider\u00e1vel sucesso no tratamento agudo da depress\u00e3o, ainda restam d\u00favidas sobre sua efic\u00e1cia profil\u00e1tica a longo prazo (GLOAGUEN, et al., 1998).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A psicoterapia, a longo prazo, segundo Becker (1997), seria mais ben\u00e9fica que a farmacoterapia, j\u00e1 que o paciente aprenderia com sua experi\u00eancia psicoterap\u00eautica. Aprenderia a monitorar, testar na realidade e modificar padr\u00f5es estereotipados de pensamentos negativos. Assim, seriam desenvolvidas novas formas de pensar sobre si mesmo e sobre o mundo. Tais habilidades permitiriam lidar mais eficazmente com as depress\u00f5es posteriores, abortar depress\u00f5es incipientes, e, possivelmente, at\u00e9 mesmo prevenir novas depress\u00f5es. Para se atingir tal mister, faz-se imprescind\u00edvel deixar claro o car\u00e1ter pedag\u00f3gico da terapia cognitiva. A fim de que o paciente incorpore as t\u00e9cnicas cognitivo-comportamentais ao seu repert\u00f3rio de habilidades de enfrentamento, s\u00e3o sugeridos alguns passos:<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Ao longo da terapia, o paciente deve desempenhar um papel cada vez mais ativo. A meta da terapia cognitiva \u00e9 facilitar a remiss\u00e3o da Depress\u00e3o e ensinar ao paciente a ser seu pr\u00f3prio terapeuta. Um terapeuta que se v\u00ea respons\u00e1vel por ajud\u00e1-lo com cada problema arrisca gerar ou refor\u00e7ar uma depend\u00eancia e priva-o da oportunidade de testar e fortalecer suas pr\u00f3prias habilidades (BECK, 1997).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">Um outro ponto crucial a fim de evitar reca\u00eddas no futuro \u00e9 a discuss\u00e3o com o paciente de sua conceitua\u00e7\u00e3o cognitiva. Esta se constitui numa tentativa de esquematizar o funcionamento cognitivo de um indiv\u00edduo. Inicia-se nas cren\u00e7as centrais (convic\u00e7\u00f5es b\u00e1sicas que desenvolvemos sobre n\u00f3s mesmos e o mundo) e descreve o modo como elas determinam os pensamentos, sentimentos e comportamentos. Especial aten\u00e7\u00e3o deve ser dada \u00e0 reestrutura\u00e7\u00e3o das cren\u00e7as centrais disfuncionais. J\u00e1 que as cren\u00e7as centrais s\u00e3o as bases sobre as quais se desenvolvem os pensamentos autom\u00e1ticos (que s\u00e3o as interpreta\u00e7\u00f5es imediatas que fazemos de nossas experi\u00eancias) que, por sua vez, influenciam as emo\u00e7\u00f5es da pessoa (HAMMEN; ELLICOTT; GITLIN , 1989).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0Eventos vitais negativos t\u00eam maior chance de desencadear sintomas ou recidivas depressivas se forem relacionados com as cren\u00e7as disfuncionais centrais dos pacientes (SEGAL, et al., 1992).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">A diminui\u00e7\u00e3o da vulnerabilidade a futuros epis\u00f3dios se daria pelo enfraquecimento dos pressupostos fundamentais nos quais o pensamento depressivo se baseia. A contesta\u00e7\u00e3o das cren\u00e7as centrais e sua substitui\u00e7\u00e3o por outras mais realistas e funcionais geralmente demandam um trabalho persistente, pois muitas vezes s\u00e3o cren\u00e7as muito enraizadas (FENNELL, 1997).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0Na preven\u00e7\u00e3o de reca\u00eddas, um aspecto merece ser mencionado: evitar o encerramento prematuro quando houve al\u00edvio r\u00e1pido dos sintomas ap\u00f3s poucas sess\u00f5es. Essa melhora precoce pode se dever a in\u00fameros fatores que n\u00e3o a a\u00e7\u00e3o dos componentes espec\u00edficos da terapia cognitiva. Na maioria dos casos, o encerramento prematuro \u00e9 desaconselh\u00e1vel, pois os fatores psicol\u00f3gicos que predispuseram o paciente \u00e0 depress\u00e3o n\u00e3o ter\u00e3o sido explicitados e\/ou modificados. A freq\u00fc\u00eancia e a gravidade das reca\u00eddas seriam reduzidas quando o per\u00edodo inicial da terapia fosse complementado atrav\u00e9s do espa\u00e7amento progressivo do n\u00famero de sess\u00f5es, at\u00e9 poderem ser programadas sess\u00f5es de refor\u00e7o uma a duas vezes ao ano que dar\u00e3o ao paciente a possibilidade de continuar a consolidar os ganhos feitos na terapia (BECK, 1979).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\u00a0\u00c9 importante que o paciente saiba lidar com um poss\u00edvel retorno dos sintomas depressivos para que eles n\u00e3o evoluam para um novo epis\u00f3dio depressivo. Pacientes que respondem \u00e0 recorr\u00eancia de sintomas depressivos com rumina\u00e7\u00f5es sobre esses sintomas e suas implica\u00e7\u00f5es t\u00eam maior risco de reca\u00edda (DECKRSBACH; GERSHUNY; OTTO , 2000).<\/p>\n<p style=\"text-align: left;\">\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>A depress\u00e3o \u00e9 uma quest\u00e3o de sa\u00fade p\u00fablica, pois produz impacto negativo na vida do paciente e de sua fam\u00edlia, comprometendo o funcionamento do indiv\u00edduo nos<span class=\"excerpt-hellip\"> [\u2026]<\/span><\/p>\n","protected":false},"author":13,"featured_media":928,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":[],"categories":[20],"tags":[],"jetpack_sharing_enabled":true,"jetpack_featured_media_url":"https:\/\/espacocamilaferreira.com.br\/wp-content\/uploads\/2019\/02\/imagem-da-internet-reproduc3a7c3a3o-5.jpg","_links":{"self":[{"href":"https:\/\/espacocamilaferreira.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/923"}],"collection":[{"href":"https:\/\/espacocamilaferreira.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/espacocamilaferreira.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocamilaferreira.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/users\/13"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocamilaferreira.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcomments&post=923"}],"version-history":[{"count":1,"href":"https:\/\/espacocamilaferreira.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/923\/revisions"}],"predecessor-version":[{"id":2125,"href":"https:\/\/espacocamilaferreira.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/posts\/923\/revisions\/2125"}],"wp:featuredmedia":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocamilaferreira.com.br\/index.php?rest_route=\/wp\/v2\/media\/928"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/espacocamilaferreira.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fmedia&parent=923"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocamilaferreira.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Fcategories&post=923"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/espacocamilaferreira.com.br\/index.php?rest_route=%2Fwp%2Fv2%2Ftags&post=923"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}